São Paulo – A violência no trânsito mata cerca de 1,2 milhões de pessoas por ano em todo o mundo, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O Brasil é reflexo desta situação mundial e está entre os países com os maiores índices de acidentes. Morrem em média 30 mil pessoas por ano nas ruas e rodovias brasileiras e mais de 100 mil são internadas por lesões decorrentes de acidentes de trânsito. Em 2002, foram 33.265 óbitos, ou seja, 91 mortes por dia. O que o governo gasta no atendimento a acidentes é maior do que quando se tratam de causas naturais. Esses dados foram apresentados nesta quarta-feira (7) num evento sobre segurança no trânsito realizado em comemoração ao Dia Mundial da Saúde na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP).
O interesse do setor pela questão é justificado pela mortalidade crescente, que atinge principalmente faixas etárias jovens da população, pela elevação no número de internações e pelo congestionamento dos prontos socorros ocasionados pelos acidentes. Um quarto das internações e 26,5% das mortes por causas não naturais se devem a acidentes de trânsito, só perdendo para os homicídios que representam 39% dos óbitos por causas externas. “Isso vem alterando até mesmo indicadores como a esperança de vida da população e os Anos Potenciais de Vida Perdidos (APVP), anulando anos ganhos com o combate a doenças”, afirma a pesquisadora Maria Helena de Mello Jorge, do Departamento de Epidemiologia da FSP.
Um estudo realizado por Maria Helena e pela pesquisadora Maria Sumie Koizumi, da Escola de Enfermagem da USP, revelou os altos custos dos acidentes para o setor. Eles representam cerca de 6% das internações do Sistema Único de Saúde (SUS) e custam 8% do total de gastos do sistema. O gasto por dia é 50% superior ao custo médio das demais internações, o que faz com que o SUS gaste mais com internações por trauma do que com doenças, embora o tempo de permanência no hospital seja, em média, menor.
Outros dados apresentados são em relação ao perfil das vítimas. A maioria é formada por adultos jovens (de 20 a 39 anos), o número de homens é quatro vezes maior que o de mulheres, e esta é a primeira causa de morte entre crianças de 5 a 14 anos e entre idosos de 60 a 79 anos. Os tipos mais freqüentes de acidentes de trânsito no país são os atropelamentos (60% do total) e os que envolvem motociclistas (20%). Os grupos mais vulneráveis a atropelamentos são crianças, para quem faltam espaços públicos de recreação, e idosos, que muitas vezes já perderam parte da capacidade visual, auditiva ou motora.
A maior parte dos motociclistas acidentados são os “motoboys”, em horário de serviço. “Esse é um fenômeno que começou na década de 90. Antes, as motocicletas eram utilizadas somente para lazer”, afirma Maria Sumie. A associação entre acidentes de moto e acidentes de trabalho torna o problema ainda mais sério. O número de pessoas que usam motocicletas para o sustento vem aumentando, especialmente entre os trabalhadores de baixa renda, bem como o de acidentes de moto.
Para as pesquisadoras, os acidentes de trânsito não são obras do acaso, suas causas são em menor ou maior grau previsíveis e passíveis de prevenção. Elas defendem que sejam seguidas as diretrizes da Política Nacional para a Redução da Morbi-mortalidade por Acidentes e Violências, do Ministério da Saúde, que institui diversos níveis de prevenção. A prevenção se preocupa com a interrupção da cadeia de eventos antes de sua ocorrência e com a valorização da educação e do uso de equipamentos de segurança. A secundária inclui a otimização da assistência nas diferentes fases do atendimento ao trauma (pré-hospitalar, serviços de emergência e hospitalar) e a terciária consiste na criação e ampliação da assistência a longo prazo, com reabilitação, incluindo a reintegração do paciente à comunidade. Aprovada em 2001, como instrumento orientador da atuação do setor público de Saúde nesse contexto, a política ainda precisa ser colocada em prática.
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